





















Prólogo
Primeiro Capítulo
Uma saga desdobra-se
Há mundos que começam em silêncio. Este não. Este começa com um rasgo que atravessou uma noite de verão como uma lâmina pela seda molhada. Nos salões de espelhos da alta fortaleza a luz caiu em estilhaços. Os guardas que contavam a sua respiração calaram-se para sempre. E acima de tudo isso erguia-se uma criança que ainda não sabia que acabara de perder o mundo.
O seu nome era mais antigo do que ela. As casas baixavam o olhar quando ele caía. As lâminas curvavam-se quando ele era pronunciado. Mas os nomes nada protegem quando a noite decide vir em silêncio. O que resta, quando as paredes são espelhos e todas se quebram ao mesmo tempo?

Continuar a respirar. Continuar a arder. Continuar a caminhar. Tão simples. Tão impossível. Uma tigresa, sozinha dentro da jaula do seu próprio sangue, decide ser atrevida. Barulhenta. Teimosa o suficiente para recusar que o luto a conserte. Não tem respostas. Tem uma direcção — e isso já é mais do que a maioria jamais possuirá.
Esta não é a história de uma princesa. É a crónica de um mundo em equilíbrio sobre o fio de uma única rapariga — entre cura e ruína, entre perdão e fogo, entre uma paz ainda por inventar e uma chama que sempre esteve.
A tinta ainda está húmida. A primeira pincelada começa agora.
Após a noite não veio consolo. Veio o orvalho que lavou os estilhaços dos espelhos, e um vento que deixou os portões abertos. Kira saiu sem saber para onde. Saiu porque, lá dentro, já não havia quem a segurasse. Às vezes um reino começa no instante em que uma criança atravessa o limiar.
O mundo não lhe enviou respostas. Enviou-lhe companheiros. Uma irmã vermelha de sombras e lâminas que nunca pediu licença. Uma mãe severa de madeira e brasa que lhe impôs chá e verdade — ambos escaldantes. Um mestre que dava enigmas em vez de ordens, e um monge silencioso que simplesmente caminhava ao seu lado, como se o silêncio fosse, ele próprio, um voto.

Mas a paz é uma vela numa sala cheia de respiração. As casas antigas começaram a sussurrar. Dívidas que ninguém queria pagar voltaram para cobrar. E onde o mundo desviou o olhar por tempo demais, juntou-se algo que já não precisava de nome. Os demónios nunca estiveram longe — apenas esperavam que o mundo se esquecesse de os ver.
Uma menina, quatro companheiros, e uma pergunta que nenhum mapa comporta: como se cura um mundo que se ensinou a sangrar a si mesmo? Talvez não com a lâmina. Talvez com canções. Talvez com aquilo que uma tigresa faz quando se recusa a calar.
Aqui termina o prólogo. O que agora começa é a saga em si.
O mundo depois do prólogo não é o mundo de antes. O que era relato — a muralha no norte, os bambuzais, a aldeia do Espelho Profundo — torna-se chão sob os pés de Kira. Já não é a herdeira que tem de esconder o nome que carrega. É a tigresa que o usa, e que o defende a cada dia de novo.
Os companheiros tornam-se família. Mas as casas antigas têm memórias que sobrevivem às suas paredes. Mensageiros chegam com selos forjados. Pontes ardem em noites em que ninguém deveria fazer fogo. E Kira aprende que a esperança não é um presente — é uma decisão que se toma a cada manhã de novo.

Nunca esquecer por que lutamos. Por que continuamos. Pela esperança de que um espelho partido mostre mais do que uma parede inteira deles. Por cada sopro que a noite não leva consigo. Esta saga começa agora — e pertence a quem escolha caminhar com ela.
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Sombra · Karma · Consequência
Quando os demónios tomam posse.
16+Gostamos de contar a nós mesmos que o mal usa chifres. Que tem um rosto, um nome, uma sombra que se pode contornar com nitidez — algo para apontar, nomear, separar dos bons. Seria tão simples. É uma bela mentira.
A verdade não tem chifres. Tem mãos — as nossas. Cada escolha errada é um bocado que lhes estendemos. Cada mentira um ponto de costura com que lhes damos carne. Cada traição um sopro que insuflamos nos seus pulmões. Antes de sermos as suas vítimas, somos os seus cozinheiros.
Enquanto não mantivermos o equilíbrio, enquanto não nos virmos como a soma das nossas metades — luz e sombra na mesma mão —, enquanto não lutarmos contra os demónios em nós, acabarão por encontrar mãos que já não recuam. E então levam o sofrimento para fora. Não porque o queiram. Porque lho emprestámos.
Os demónios não são o mal. São a conta. O karma de uma sociedade que esquece o que alimentou — e depois se admira do que bate à sua porta. É isso que os torna imprevisíveis: uma lâmina não basta para os acabar. Só podem ser contidos. E lembrados. Lembrados por quem os trouxe ao mundo.

Uma sombra não se vence com a lâmina. Apenas com luz.